segunda-feira, 25 de julho de 2016

                                    Memorial “Perdão da Alma”.
   Perdão da alma trata-se de um vídeo arte que trás alguns questionamentos a respeito de alguns pontos de uma tradição que ocorre a anos. Ao fazer uma pesquisa mais aprofundada a respeito das rezas que muitas vezes ocorrem antes do samba de roda uma oração nos chamou a atenção, a oração intitulada senhor Deus que é tirada apenas pelo homem da casa – Caso não haja ela pode ser tirada por algum membro da comunidade – Logo nos perguntamos o porquê de essa oração poder ser tirada apenas por homem foi desde então que começamos a conversar com algumas pessoas da comunidade a respeito buscando descobrir respostas para tais questionamentos.
Fomos até o povoado das Piabas, zona rural de cruz das Almas, onde ocorrem essas orações e perguntamos como tudo começou. Explicaram-nos que as rezas geralmente são feitas em sinal de agradecimento após alguma conquista. Com relação à oração da qual nos chamou tanta atenção inicialmente conversamos com D. Isaura, uma das moradoras mais antigas do local e a única que ainda faz essas rezas com uma certa freqüência  mantendo a tradição viva na comunidade. Apesar de a memória estar fraca devido à idade avançada, dona Isaura nos contou que desde a infância sempre diziam que mulher não poderia tirar a oração, e ela mesmo com seus 87 anos de idade e mais de 70 anos participando e realizando essas rezas, ela nunca fez nenhum questionamento a respeito desse assunto por questão de respeito e crença.

 “Minha filha, me foi passado os ensinamentos assim, pra quê eu vou procurar mudar? A mulher não pode fazer porque o homem tem a cruz na cabeça e a mulher não.”
   (D. Isaura, 2016. entrevistadoras: Tainã Araújo e Vanessa Santos)


 Quando conversamos com Dona Nice, outra rezadeira da comunidade, ela nos explicou que a oração só pode ser tirada pelo homem da casa, e em poucos casos alguns homens da comunidade também podem “tirar” a oração, ela disse que já viu casos em que  uma mulher se vestiu de homem para fazer a oração devido ao fato de que no momento não havia nenhum homem no recinto. Questionamo-la sobre o porquê de nenhuma mulher poder tirar a oração, e o que significava o fato de “o homem ter uma cruz na cabeça”.

“Olha, eu também não sei o porquê disso. Só sei que desde que aprendi sempre disseram isso, só homem pode tirar a reza porque a oração é muito forte e o homem é forte, acho que é por isso. Como desde sempre a gente aprendeu assim só resta respeitar e manter a tradição do jeito que ela é, onde tem homem, mulher não tira Senhor Deus. Se a gente for fazer uma reza e não tiver homem, a gente pega um chapéu ou até mesmo um boné, coloca na cabeça e tira. Mas tem que ter respeito”.
(D. Nice, 2016. entrevistadoras: Tainã Araujo e Vanessa Santos)

Ou seja, até então, não havíamos encontrado uma explicação plausível para essa crença, o que ouvimos da grande maioria era que elas haviam aprendido que só homens podiam fazer a oração e que nunca haviam se perguntado a respeito por uma questão de fé e respeito. As rezas são patrimônio imaterial, ou seja, podem ser passadas por gerações de forma que a tradição possa ser modificada com o passar dos anos, mas sem perder o seu verdadeiro foco. E assim é com a oração senhor deus, uma oração que é passada a muito tempo de pai pra filho, com um tipo de “regra” que vem persistindo em ser obedecida desde sempre.
Nosso vídeo arte é composto por alguns depoimentos de pessoas da comunidade em conjunto com um pequeno trecho da oração senhor Deus, que é a reza em questão juntamente com trechos dos depoimentos colhidos com as senhoras da comunidade que durante tantos anos nunca se questionaram a respeito dessa tradição.
Depois de algumas entrevistas, eis que encontramos Dona Lego a que nos contou que o que elas chamam de cruz na cabeça nada mais é do que uma superstição antiga, pois quando as pessoas eram pagãs era de costume fazer o sinal da cruz na cabeça como símbolo de proteção. Como o homem é considerado um ser forte surgiu a “regra” de que como a oração é um ato penitencial no qual pedimos perdão pelos nossos pecados, o homem por ser o responsável pela família se encarregava de fazê-la.

“Hoje com o conhecimento da palavra que nos temos, homem e mulher podem tirar o senhor Deus, todo mundo precisa rezar porque todo mundo precisa de perdão. Mas mesmo assim os nossos antepassados mantém a tradição de só o homem tirar, mas isso é só um costume.”
(D. Lêgo, 2016. entrevistadoras: Tainã Araujo e Vanessa Santos)

Nosso trabalho foi inspirado também no vídeo arte intitulado O Ramo, criado pela ONG Nova Consciência, que é uma instituição sem fins lucrativos, que faz encontros e vídeos discutindo assuntos do cotidiano e pregando o respeito, a tolerância, compreensão e amor. Nele, as rezadeiras contam como aprenderam, quando começaram, e algumas contam como a fé nessas rezas fez diferença na vida de muitas delas, contam sobre as tradições envoltas nessa prática e como elas ajudam pessoas da comunidade através das suas rezas.
Eles têm também vídeos que falam sobre as diversas crenças e tradições, mantendo o respeito e a visão daquele que vive e acredita naquela determinada coisa.  Ao fim da montagem desse vídeo arte, e tomando como base a inspiração dessa ONG, que busca aprender e desvendar essas tradições mas sempre mantendo o respeito, nós tivemos o prazer de relembrar momentos da infância e juventude, na qual vivenciamos essas rezas tradicionais de perto e tudo isso fez com que nosso desejo de que esta tradição não se perca aumentasse ainda mais.

Nossas conversas com as pessoas da comunidade das piabas sobre a crença do Senhor Deus nos abriu os olhos para o fato de que infelizmente os valores estão se perdendo, algumas tradições importantes estão se enfraquecendo e até sendo esquecidas, por outro lado, este bate papo foi uma experiência na qual temos certeza de que agregou ainda mais valor à nossa fé, ao nosso conhecimento, e principalmente à nossa forma de ver as pessoas que por mais que já estejam com uma idade avançada, e precisem da ajuda de terceiros para realizar as rezas, não abrem mão dessa tradição.

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