Memorial
“Perdão da Alma”.
Perdão da alma trata-se de um vídeo arte que trás alguns questionamentos
a respeito de alguns pontos de uma tradição que ocorre a anos. Ao fazer uma
pesquisa mais aprofundada a respeito das rezas que muitas vezes ocorrem antes
do samba de roda uma oração nos chamou a atenção, a oração intitulada senhor
Deus que é tirada apenas pelo homem da casa – Caso não haja ela pode ser tirada
por algum membro da comunidade – Logo nos perguntamos o porquê de essa oração
poder ser tirada apenas por homem foi desde então que começamos a conversar com
algumas pessoas da comunidade a respeito buscando descobrir respostas para tais
questionamentos.
Fomos até o povoado das Piabas, zona
rural de cruz das Almas, onde ocorrem essas orações e perguntamos como tudo
começou. Explicaram-nos que as rezas geralmente são feitas em sinal de
agradecimento após alguma conquista. Com relação à oração da qual nos chamou
tanta atenção inicialmente conversamos com D. Isaura, uma das moradoras mais
antigas do local e a única que ainda faz essas rezas com uma certa
freqüência mantendo a tradição viva na
comunidade. Apesar de a memória estar fraca devido à idade avançada, dona
Isaura nos contou que desde a infância sempre diziam que mulher não poderia
tirar a oração, e ela mesmo com seus 87 anos
de idade e mais de 70 anos participando e realizando essas rezas, ela nunca fez
nenhum questionamento a respeito desse assunto por questão de respeito e
crença.
“Minha filha, me foi passado os ensinamentos
assim, pra quê eu vou procurar mudar? A mulher não pode fazer porque o homem
tem a cruz na cabeça e a mulher não.”
(D. Isaura, 2016.
entrevistadoras: Tainã Araújo e Vanessa Santos)
Quando conversamos com Dona Nice, outra rezadeira da comunidade, ela nos explicou que a oração só pode ser tirada pelo homem da casa, e em poucos casos alguns homens da comunidade também podem “tirar” a oração, ela disse que já viu casos em que uma mulher se vestiu de homem para fazer a oração devido ao fato de que no momento não havia nenhum homem no recinto. Questionamo-la sobre o porquê de nenhuma mulher poder tirar a oração, e o que significava o fato de “o homem ter uma cruz na cabeça”.
“Olha, eu também
não sei o porquê disso. Só sei que desde que aprendi sempre disseram isso, só
homem pode tirar a reza porque a oração é muito forte e o homem é forte, acho
que é por isso. Como desde sempre a gente aprendeu assim só resta respeitar e
manter a tradição do jeito que ela é, onde tem homem, mulher não tira Senhor
Deus. Se a gente for fazer uma reza e não tiver homem, a gente pega um chapéu
ou até mesmo um boné, coloca na cabeça e tira. Mas tem que ter respeito”.
(D. Nice, 2016. entrevistadoras: Tainã Araujo e Vanessa Santos)
Ou seja, até então, não havíamos
encontrado uma explicação plausível para essa crença, o que ouvimos da grande
maioria era que elas haviam aprendido que só homens podiam fazer a oração e que
nunca haviam se perguntado a respeito por uma questão de fé e respeito. As
rezas são patrimônio imaterial, ou seja, podem ser passadas por gerações de
forma que a tradição possa ser modificada com o passar dos anos, mas sem perder
o seu verdadeiro foco. E assim é com a oração senhor deus, uma oração que é
passada a muito tempo de pai pra filho, com um tipo de “regra” que vem
persistindo em ser obedecida desde sempre.
Nosso vídeo arte é composto por alguns
depoimentos de pessoas da comunidade em conjunto com um pequeno trecho da
oração senhor Deus, que é a reza em questão juntamente com trechos dos
depoimentos colhidos com as senhoras da comunidade que durante tantos anos
nunca se questionaram a respeito dessa tradição.
Depois de algumas entrevistas, eis que
encontramos Dona Lego a que nos contou que o
que elas chamam de cruz na cabeça nada mais é do que uma superstição antiga,
pois quando as pessoas eram pagãs era de costume fazer o sinal da cruz na
cabeça como símbolo de proteção. Como o homem é considerado um ser forte surgiu
a “regra” de que como a oração é um ato penitencial no qual pedimos perdão
pelos nossos pecados, o homem por ser o responsável pela família se encarregava
de fazê-la.
“Hoje com o conhecimento da palavra que nos temos, homem e mulher podem tirar o senhor Deus, todo mundo precisa rezar porque todo mundo precisa de perdão. Mas mesmo assim os nossos antepassados mantém a tradição de só o homem tirar, mas isso é só um costume.”
(D. Lêgo, 2016. entrevistadoras: Tainã Araujo e Vanessa Santos)
Nosso trabalho foi inspirado também no
vídeo arte intitulado O Ramo, criado pela ONG Nova Consciência, que é uma instituição
sem fins lucrativos, que faz encontros e vídeos discutindo assuntos do
cotidiano e pregando o respeito, a tolerância, compreensão e amor. Nele, as
rezadeiras contam como aprenderam, quando começaram, e algumas contam como a fé
nessas rezas fez diferença na vida de muitas delas, contam sobre as tradições
envoltas nessa prática e como elas ajudam pessoas da comunidade através das
suas rezas.
Eles têm também vídeos que falam sobre as
diversas crenças e tradições, mantendo o respeito e a visão daquele que vive e
acredita naquela determinada coisa. Ao
fim da montagem desse vídeo arte, e tomando como base a inspiração dessa ONG,
que busca aprender e desvendar essas tradições mas sempre mantendo o respeito,
nós tivemos o prazer de relembrar momentos da infância e juventude, na qual
vivenciamos essas rezas tradicionais de perto e tudo isso fez com que nosso
desejo de que esta tradição não se perca aumentasse ainda mais.
Nossas conversas com as pessoas da
comunidade das piabas sobre a crença do Senhor Deus nos abriu os olhos para o
fato de que infelizmente os valores estão se perdendo, algumas tradições
importantes estão se enfraquecendo e até sendo esquecidas, por outro lado, este
bate papo foi uma experiência na qual temos certeza de que agregou ainda mais
valor à nossa fé, ao nosso conhecimento, e principalmente à nossa forma de ver
as pessoas que por mais que já estejam com uma idade avançada, e precisem da
ajuda de terceiros para realizar as rezas, não abrem mão dessa tradição.
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