quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Corpo e Vídeo - O embate em direto
 Christine Mello

Desde os primórdios a videográfica já era utilizada por artistas plásticos, eles utilizavam dela para realizar trabalho que na maioria das vezes ia contra os trabalhos criados pela linguagem de mídia televisiva como a televisão e o cinema.
O vídeo é um meio de comunicação muito utilizado, pois através dele é possível transmitir uma mensagem a um enorme numero de pessoas, pois ele é formado por diversos termos e expressões artísticas praticadas em diversos meios, facilitando assim a sua disseminação, o que o torna de essência hibrida.
O vídeo arte surge como um novo recurso, apresentando aos artistas um espaço cheio de novas possibilidades e capaz de construir um resultado sensacional de trabalho, essa tecnologia se tornou indispensável, pois a arte passou a ser vista com um outro ponto de vista, sem frames, sem cortes e sem espaços na construção do vídeo.
O vídeo arte é sem duvidas o fruto de uma caminhada de avanço frente a imagem, apresentando aos artistas um enorme leque de possibilidades e compreensão da evolução tecnológica.
Com o estudo do texto Corpo e vídeo: O embate em direto da autora Christine Mello constatamos que segundo a autora, o corpo natural e o corpo artificial cada vez mais se tornam mais comunicáveis através das máquinas, pois o nosso corpo se tornou hibrido fazendo com que sejamos totalmente capazes de termos uma comunicação com objetos orgânicos e sintéticos.
O nosso corpo é um lugar de construção de sentidos que estão ligados diretamente com o espaço, sendo capaz de criar e transformar novas realidades.
A vídeo arte tem sido muito utilizada desde o começo para captar exatamente essa relação hibrida do nosso corpo com o espaço, e de como esse corpo pode se adaptar, transformar e recriar os nossos sentidos de acordo com a situação em que nós nos encontramos, diversos artistas tem explorado as novas percepções do corpo para trabalhos em vídeo arte se utilizando do tempo real.
Na arte Brasileira encontramos diversos artistas que trabalham essa ligação Corpo/arte, corpo/vídeo arte, e a exploração dos sentidos diversos, e neste sentido encontramos a presença pioneira dos brasileiros: Flavio de Carvalho que é arquiteto que como Oswaldo de Andrade fazem parte do movimento antropofágico (manifestação artística brasileira da década de 1920, fundada e teorizada pelo poeta paulista Oswald de Andrade). Faz parte ainda deste grupo os artistas como Lygia Clark, Hélio Oiticica, Lucia Santaella, que criaram obras que incentivam uma gestualidade performática por parte de um espectador participante e que repensavam assim ações corporais e psíquicas através de sua encenação artística.
A autora ainda coloca as relações do corpo e do vídeo como significativas por conta da capacidade que estes tem de colocar em tempo real e de forma simultânea ao acontecimento.
A artistas Letícia Parente usa do corpo e vídeo para criticar o corpo inativo e apontar para a urgência que se tem de ter um corpo ativo e que se utiliza para intervir de forma critica a toda essa questão do corpo meramente passivo.
Todos esses trabalhos e os demais citados no texto por Mello servem para tratar e discutir toda essa pratica performática por trás da utilização do corpo como suporte de arte. Relacionam as praticas poéticas dos artistas como a necessidade de dialogo entre corpo e vídeo.
Os artistas que trabalham com o vídeo arte no Brasil se utilizam do corpo em muitos dos seus trabalhos, eles apresentam inicialmente o vídeo apenas como um modo de registro para suas obras, para suas performances, mas na maioria das vezes esses registros que são por diversas vezes utilizados para a demonstração do trabalho utilizado acaba sendo caracterizado como uma vídeo arte.
Na terceira parte do texto a autora fala dos contextos criativos entre corpo e vídeo nas décadas de 70, 80 e 90.  Na década de 70 os trabalhos realizados no Brasil tinham um cunho critico por conta do momento delicado que o país se encontrava que era a ditadura, o país estava passando por um confronto civil. Os artistas se utilizavam dos seus corpos como forma de instrumento critico, instrumento político e disseminador de idéias.
Já na década de 80 e inicio dos anos 90 os processos de criação foram se dando a partir da manipulação da imagem do corpo no vídeo, a noção de materialidade da linguagem. Os trabalhos de vídeo neste período se deu de uma forma bem diferente dos anos 70, pois os artistas desta nova geração deixarão de travar um embate performático entre o vídeo e o corpo e passaram a trabalhar com uma embate de ordem mais estruturalizante.
O corpo e o vídeo devem ser tratados na verdade como um campo de experiência auxiliar da arte em que se tem a oportunidade de operar alguns dos muitos trânsitos de conexão subjetiva com o mundo da arte.


Letícia Parente (1930 – 1991)

Nascida em Salvador, Bahia, em 1930 Letícia está entre os artistas pioneiros na vídeo arte no Brasil. Formada em química exerceu papel importante também nesta área de pesquisa. A partir dos anos 70 Letícia era conhecida como um dos nomes centrais da vídeo arte brasileira, sua primeira exposição individual foi no MAM/RJ (Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro), em 1976, posteriormente tendo suas obras expostas em outros lugares do Brasil  (Como a participação na 16ª Bienal Internacional de São Paulo em 1981) e no exterior.
Sobre suas obras, Letícia comenta: 
“A sua dinâmica é mais ramificada do que linear. Deixo que ele persiga um processo, o meu processo de descoberta e visão. Suas raízes de unidade evidentes estão dentro de mim e resultam da interação da minha realidade com a realidade social e histórica do meu tempo e do meu momento.”
(Letícia Parente)
Ou seja, suas obras consistem na visão pessoal da artista, indiretamente correlacionada com a visão social. Ela expõe em seus vídeos arte, as percepções particulares, sem levar muito em conta a tentativa de se “parecer” como a realidade do outro, deixando assim de uma forma mais clara a intenção de que o espectador tente interagir a própria realidade com a realidade, tempo e momento expostos pela artista.

Obra: PREPARAÇÃO I
A artista chega ao espelho do banheiro e vai se preparar para sair. Cola um esparadrapo sobre um dos olhos e desenha sobre o esparadrapo com lápis de sobrancelha um olho aberto. Faz o mesmo com o outro olho. Em seguida, cobre a boca com esparadrapo também, e desenha sobre ele com um batom uma boca. Ajeita o cabelo. Pega a bolsa e sai.
Ano: 1975
Duração original: 6 minutos
Formato: porta-pack ½ polegadas
Câmera: Jom Tob Azulay

O vídeo se forma na representação de uma prática, que se torna automática com o tempo. O ato de colocar um esparadrapo nos olhos e na boca consiste numa chamada para observação direta com o que se vê com tanta freqüência que deixa de ser importante ou observado com cautela. Qual seria o real motivo de esconder os olhos que são considerados janelas da alma e mesmo assim desenhar outros em cima da fita? Creio que seria nada mais do que uma crítica oculta, de forma que ao observar olhos e boca falsos utilizados no dia a dia, deixa clara a idéia de que o que não é visto nem dito não é memorado, não é observado, não é questionado.
Se for observado e comentado, levando em conta a questão da memória, fica clara a habilidade de que o ato de optar por manter a visão no escuro e a boca vedada buscando assim o prazer do silêncio, instiga ao observador a curiosidade em saber qual o real motivo (neste caso o motivo particular da artista) a ter tal atitude, e também no que ela estaria pensando no momento em que se maquia de maneira natural para sair.
Este vídeo arte tem infinitas possibilidades de ser observada, mas sem sombra de dúvidas a que mais chama a atenção e faz o espectador refletir é a curiosidade através do claro trabalho da memória e isso fica claro no momento em que ela diz:
“O que se quer, em suma, do vídeo é a possibilidade de confrontar vivência ao nível mais profundo (...)”

Referencias:

MELLO, Christine(2004). Corpo e Vídeo: O embate em Direto. São Paulo.

MACHADO, Arlindo (1988). A arte do vídeo. São Paulo: Brasiliense.


Slide da apresentação em sala

As rezas de Dona Isaura 
Texto - Corpo e Video: o embate em direto
Artista: Leticia Parente