Corpo e Vídeo - O embate em direto
Christine Mello
Desde os primórdios a videográfica já era utilizada
por artistas plásticos, eles utilizavam dela para realizar trabalho que na
maioria das vezes ia contra os trabalhos criados pela linguagem de mídia
televisiva como a televisão e o cinema.
O vídeo é um meio de comunicação muito utilizado,
pois através dele é possível transmitir uma mensagem a um enorme numero de
pessoas, pois ele é formado por diversos termos e expressões artísticas praticadas
em diversos meios, facilitando assim a sua disseminação, o que o torna de
essência hibrida.
O vídeo arte surge como um novo recurso, apresentando
aos artistas um espaço cheio de novas possibilidades e capaz de construir um
resultado sensacional de trabalho, essa tecnologia se tornou indispensável,
pois a arte passou a ser vista com um outro ponto de vista, sem frames, sem
cortes e sem espaços na construção do vídeo.
O vídeo arte é sem duvidas o fruto de uma caminhada
de avanço frente a imagem, apresentando aos artistas um enorme leque de
possibilidades e compreensão da evolução tecnológica.
Com o estudo do texto Corpo e vídeo: O embate em
direto da autora Christine Mello constatamos que segundo a autora, o corpo
natural e o corpo artificial cada vez mais se tornam mais comunicáveis através
das máquinas, pois o nosso corpo se tornou hibrido fazendo com que sejamos
totalmente capazes de termos uma comunicação com objetos orgânicos e
sintéticos.
O nosso corpo é um lugar de construção de sentidos
que estão ligados diretamente com o espaço, sendo capaz de criar e transformar
novas realidades.
A vídeo arte tem sido muito utilizada desde o começo
para captar exatamente essa relação hibrida do nosso corpo com o espaço, e de
como esse corpo pode se adaptar, transformar e recriar os nossos sentidos de
acordo com a situação em que nós nos encontramos, diversos artistas tem
explorado as novas percepções do corpo para trabalhos em vídeo arte se
utilizando do tempo real.
Na arte Brasileira encontramos diversos artistas que
trabalham essa ligação Corpo/arte, corpo/vídeo arte, e a exploração dos
sentidos diversos, e neste sentido encontramos a presença pioneira dos
brasileiros: Flavio de Carvalho que é arquiteto que como Oswaldo de Andrade
fazem parte do movimento antropofágico (manifestação artística brasileira da
década de 1920, fundada e teorizada pelo poeta paulista Oswald de Andrade). Faz
parte ainda deste grupo os artistas como Lygia Clark, Hélio Oiticica, Lucia
Santaella, que criaram obras que incentivam uma gestualidade performática por
parte de um espectador participante e que repensavam assim ações corporais e
psíquicas através de sua encenação artística.
A autora ainda coloca as relações do corpo e do vídeo
como significativas por conta da capacidade que estes tem de colocar em tempo
real e de forma simultânea ao acontecimento.
A artistas Letícia Parente usa do corpo e vídeo para
criticar o corpo inativo e apontar para a urgência que se tem de ter um corpo
ativo e que se utiliza para intervir de forma critica a toda essa questão do
corpo meramente passivo.
Todos esses trabalhos e os demais citados no texto
por Mello servem para tratar e discutir toda essa pratica performática por trás
da utilização do corpo como suporte de arte. Relacionam as praticas poéticas dos
artistas como a necessidade de dialogo entre corpo e vídeo.
Os artistas que trabalham com o vídeo arte no Brasil se
utilizam do corpo em muitos dos seus trabalhos, eles apresentam inicialmente o
vídeo apenas como um modo de registro para suas obras, para suas performances,
mas na maioria das vezes esses registros que são por diversas vezes utilizados
para a demonstração do trabalho utilizado acaba sendo caracterizado como uma
vídeo arte.
Na terceira parte do texto a autora fala dos
contextos criativos entre corpo e vídeo nas décadas de 70, 80 e 90. Na década de 70 os trabalhos realizados no
Brasil tinham um cunho critico por conta do momento delicado que o país se
encontrava que era a ditadura, o país estava passando por um confronto civil.
Os artistas se utilizavam dos seus corpos como forma de instrumento critico,
instrumento político e disseminador de idéias.
Já na década de 80 e inicio dos anos 90 os processos
de criação foram se dando a partir da manipulação da imagem do corpo no vídeo,
a noção de materialidade da linguagem. Os trabalhos de vídeo neste período se
deu de uma forma bem diferente dos anos 70, pois os artistas desta nova geração
deixarão de travar um embate performático entre o vídeo e o corpo e passaram a
trabalhar com uma embate de ordem mais estruturalizante.
O corpo e o vídeo devem ser tratados na verdade como
um campo de experiência auxiliar da arte em que se tem a oportunidade de operar
alguns dos muitos trânsitos de conexão subjetiva com o mundo da arte.
Letícia Parente (1930 – 1991)
Nascida em Salvador, Bahia, em 1930 Letícia está
entre os artistas pioneiros na vídeo arte no Brasil. Formada em química exerceu
papel importante também nesta área de pesquisa. A partir dos anos 70 Letícia
era conhecida como um dos nomes centrais da vídeo arte brasileira, sua primeira
exposição individual foi no MAM/RJ (Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro),
em 1976, posteriormente tendo suas obras expostas em outros lugares do
Brasil (Como a participação na 16ª
Bienal Internacional de São Paulo em 1981) e no exterior.
Sobre suas obras, Letícia comenta:
“A sua dinâmica é mais ramificada do que
linear. Deixo que ele persiga um processo, o meu processo de descoberta e
visão. Suas raízes de unidade evidentes estão dentro de mim e resultam da
interação da minha realidade com a realidade social e histórica do meu tempo e
do meu momento.”
(Letícia Parente)
Ou seja, suas obras consistem na visão pessoal da artista, indiretamente
correlacionada com a visão social. Ela expõe em seus vídeos arte, as percepções
particulares, sem levar muito em conta a tentativa de se “parecer” como a
realidade do outro, deixando assim de uma forma mais clara a intenção de que o
espectador tente interagir a própria realidade com a realidade, tempo e momento
expostos pela artista.
Obra:
PREPARAÇÃO I
A artista chega ao espelho do banheiro e
vai se preparar para sair. Cola um esparadrapo sobre um dos olhos e desenha
sobre o esparadrapo com lápis de sobrancelha um olho aberto. Faz o mesmo com o
outro olho. Em seguida, cobre a boca com esparadrapo também, e desenha sobre
ele com um batom uma boca. Ajeita o cabelo. Pega a bolsa e sai.
Ano: 1975
Duração original: 6 minutos
Formato: porta-pack ½ polegadas
Câmera: Jom Tob Azulay
Duração original: 6 minutos
Formato: porta-pack ½ polegadas
Câmera: Jom Tob Azulay
O vídeo se forma na representação de uma prática, que
se torna automática com o tempo. O ato de colocar um esparadrapo nos olhos e na
boca consiste numa chamada para observação direta com o que se vê com tanta
freqüência que deixa de ser importante ou observado com cautela. Qual seria o
real motivo de esconder os olhos que são considerados janelas da alma e mesmo
assim desenhar outros em cima da fita? Creio que seria nada mais do que uma
crítica oculta, de forma que ao observar olhos e boca falsos utilizados no dia
a dia, deixa clara a idéia de que o que não é visto nem dito não é memorado,
não é observado, não é questionado.
Se for observado e comentado, levando em conta a
questão da memória, fica clara a habilidade de que o ato de optar por manter a
visão no escuro e a boca vedada buscando assim o prazer do silêncio, instiga ao
observador a curiosidade em saber qual o real motivo (neste caso o motivo
particular da artista) a ter tal atitude, e também no que ela estaria pensando
no momento em que se maquia de maneira natural para sair.
Este vídeo arte tem infinitas possibilidades de ser
observada, mas sem sombra de dúvidas a que mais chama a atenção e faz o
espectador refletir é a curiosidade através do claro trabalho da memória e isso
fica claro no momento em que ela diz:
“O que se quer, em suma, do vídeo é a possibilidade
de confrontar vivência ao nível mais profundo (...)”
Referencias:
MELLO, Christine(2004). Corpo e Vídeo: O embate em
Direto. São Paulo.
MACHADO, Arlindo (1988). A arte do vídeo. São Paulo:
Brasiliense.